Risco da banca é maior que a recompensa

Alguns gestores de fundos temem que as novas exigências de regulação reduzam do retorno de capital no sector financeiro.

O sector bancário desde a crise do crédito de 2007 que tem vindo a colocar os investidores em sobressalto.

Depois de terem apoiado os bancos durante um período de franco crescimento marcado por uma forte alavancagem e por riscos excessivos, os accionistas tiveram que injectar capital de modo a permitir que os bancos voltassem à actividade normal, algo que se repetiria mais tarde quando os governos saíram em auxílio dos bancos.

Mas são muitos os gestores de fundos que se queixam agora que os reguladores estão a pedir aumentos de capital excessivos e exagerados. Estes receios foram acalmados em parte, pelo menos na Grã-Bretanha, pelo relatório da Comissão Independente da Banca, de Sir John Vickers, relatório esse que propunha um montante mínimo de 10% de activos com risco ponderado no caso de bancos de retalho sistemicamente importantes. Mas esse relatório continha um pequeno senão no qual poucos repararam, nomeadamente que esse requisito mínimo de 10% só se aplicaria quando não se registam perdas adicionais significativas na absorção de capital de dívida. Na ausência disso, o capital accionista teria que ser mais elevado.

Num debate aceso alguns gestores de fundos referiram-se aos académicos e banqueiros centrais que apelam no sentido de uma maior almofada de capital como talibãs fundamentalistas. Será que têm razão?

O argumento dos gestores de fundos assenta na crença generalizada de que o capital accionista é escasso e caro. E temem uma redução do retorno do capital. Isto vai contra o famoso teorema de Modigliani-Miller, um marco da teoria financeira, que sugere que as alterações na forma como os activos são financiados não faz grande diferença e não afecta grandemente o custo dos fundos. Segundo a mesma teoria quanto mais capital for usado, mais a volatilidade da rentabilidade desse capital cai e mais a segurança da dívida aumenta. A taxa de rentabilidade exigida de ambas as fontes de fundos acaba assim por cair, pelo que o custo médio do financiamento se mantém assim inalterado.

E existem importantes lacunas, a primeira delas relacionada com impostos. Uma vez que os juros da dívida têm um tratamento fiscal privilegiado, o mesmo já não acontecendo aos pagamentos de dividendos, uma redução da alavancagem acaba por ter assim os seus custos. E, uma vez que os governos salvaram bancos demasiado grandes para falir, o factor de risco da dívida acaba por ser assim reduzido. Ao reduzir a dívida reduzem-se assim os apoios implícitos que os bancos recebem à custa do contribuinte.

E como afirma Anat Admati da Universidade de Stanford, essa obsessão pelo retorno do capital na banca deve-se ao facto de a forte alavancagem permitir aos bancos aumentar o valor dos apoios estatais sob a forma de impostos como estes e garantias abaixo do preço. Assim, a defesa da alavancagem tem a sua lógica. Mas isto não significa que a desalavancagem seja nociva para os accionistas. O amplo trabalho desenvolvido por David Miles do Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra mostrou que, com base em pressupostos razoáveis, uma duplicação do capital dos bancos acaba por ter um impacto sobre o custo médios dos fundos dos bancos.

O que muitos gestores de fundos não parecem perceber é que os aumentos de capital acabam por reduzir os riscos para os accionistas. Isto significa que precisam de um retorno abaixo do esperado do que um banco melhor capitalizado. Mas há quem se agarre à noção de que uma maior alavancagem vai proporcionar rentabilidades mais elevadas, sem que o risco afecte as boas perspectivas.

A realidade é que a rentabilidade das acções na banca desde os anos 80 tem sido anormalmente elevada - muito mais do que a rentabilidade no grosso do sector empresarial. Se os governos e os bancos centrais não tivessem vindo em auxílio em 2008, a consequência dessa alavancagem teria sido a eliminação de todo o capital acumulado ao longo dos anos e dos ‘inputs' de capital.

Os reguladores um pouco por todo o mundo estão agora a dar o seu melhor para garantir que os bancos podem falir sem que isso constitua um fardo elevado para os contribuintes. Assim, é do interesse dos accionistas reduzir o risco na estrutura de capital. E é do interesse da maior parte dos accionistas reduzir os terríveis custos potenciais para a economia global de outro falhanço semelhante ao que verificámos.

Enquanto alguns fundos assumem uma perspectiva genuinamente a longo prazo outras assumem riscos excessivos. Os economistas tendem a atribuir isto ao facto de terem uma responsabilidade limitada. E talvez faça sentido encorajar os gestores, que também têm uma responsabilidade limitada, a assumirem um risco excessivo, na esperança de gerarem grandes rentabilidades.

Não acho que a maioria dos gestores pensem assim. Mas são humanos e o excesso de optimismo é também uma característica humana

fonte:http://economico.sapo.pt

publicado por adm às 17:13 | comentar | favorito