Banca fecha torneira no crédito para o dia-a-dia das empresas

Banco de Portugal diz não ter ainda detectado uma asfixia nos empréstimos às empresas. No entanto, as associações empresariais e muitas PME (pequenas e médias empresas) queixam-se do fechar da torneira da banca e já nem falam nos créditos para investimentos. As empresas sentem, mesmo, é problemas nas linhas que permitem gerir a tesouraria. 

O cenário é conhecido. A actividade económica está a abrandar. Há dificuldades no recebimento de pagamentos por parte dos clientes. Os bens e serviços estão a aumentar. E há mais impostos para pagar. Em cima disto, as PME queixam-se de não estarem a conseguir da banca dinheiro para fazerem a gestão do dia-a-dia. Miguel Coelho, secretário geral da Associação Empresarial de Águeda (AEA), diz mesmo ao Negócios que "o dinheiro não está a circular". "Já nem falo de se estar a pagar cara à banca, mas falo do acesso ao crédito", acrescenta.

Muitas empresas, contactadas pelo Negócios, falam em cortes, para metade, ou encerramento de contas caucionadas (que estabelecem limites de crédito que podem ser levantados em qualquer altura, para cobrir fundos de maneio). Isto acontece depois de em 2009 terem começado a subir as taxas de juro associadas a estas contas, movimento que se manteve. Miguel Coelho diz ter conhecimento de empresas a pagar "spreads" (taxas de juro) de 15%. Num inquérito divulgado recentemente pela AIP (Associação Industrial Portuguesa) 46% das empresas que responderam ao questionário revelaram pagar taxas de juro entre 5% e os 7,5%. Mas 12% pagam juros superiores a 7,5%. Este inquérito à actividade empresarial, realizado pela AIP, foi feito a 1061 empresas.

Também neste inquérito, noticiado pelo Negócios, as empresas assumiram as restrições ao crédito. Cerca de metade dos inquiridos admite dificuldades no acesso ao crédito. 

Além do encerramento ou corte nos "plafonds" das contas corrente caucionadas, a AEA denuncia, também, a não aceitação por parte dos bancos das moratórias para os pagamentos de créditos associados às linhas PME Investe. O Governo anunciou este ano o adiamento por 12 meses do pagamento desses créditos, o que significa que para já as empresas só estariam a pagar juros, como refere o secretário de Estado da Competitividade (ver texto ao lado).

Os bancos "não emprestam às empresas", reforça Miguel Coelho, acrescentando: "se secarmos a economia e não houver dinheiro a circular isto pára. E estamos muito próximos de atingir esse ponto". 

Em 2012, as empresas temem que esta situação se agrave. Paulo Moniz, presidente da ACIST (Associação Empresarial de Comunicações de Portugal ), também falou, recentemente, ao Negócios desta situação, lembrando que 80% dos seus associados são PME. "Se há sector que precisa da banca são as PME" e sem este sector "não há qualquer alternativa para conseguirem sobreviver". Muitas estão, por isso, a fechar portas, revela Paulo Moniz que fala de uma situação de agonia para as empresas. 

Estes responsáveis associativos já não falam de crédito para investimentos, mas para aguentar o dia-a-dia das empresas, enquanto esperam pelos pagamentos dos seus clientes ou pela devolução do IVA. 

Apesar do Banco de Portugal afastar a existência de um fecho completo da torneira, certo é que as restrições começam no financiamento da própria banca. "As restrições no acesso a financiamento [da banca] podem constituir um elemento importante de restrição na oferta de crédito, contribuindo para uma desalavancagem do sector financeiro, mas condicionando também o acesso a crédito por parte das empresas e dos particulares, com consequências para a evolução da economia europeia", conclui o Banco de Portugal.
fonte:http://www.jornaldenegocios.pt/i
publicado por adm às 00:51 | comentar | favorito