Troika pode pedir reforço gradual do rácio da banca

A troika que está a negociar o plano de resgate financeiro português poderá exigir novos rácios de capital aos bancos portugueses, alegando que a medida irá torná-los mais sólidos e vai facilitar-lhes o acesso aos mercados internacionais de financiamento.

 

Os moldes em que esta exigência se concretizará ainda não produziu consenso, embora ganhe força a possibilidade de ser exigido um rácio Tier 1 (que mede os requisitos de capital em relação ao activo ponderado pelo risco) de 9 por cento este ano e de 10 por cento no próximo, dependendo esta opção da duração do programa de apoio a Portugal.

Apesar de se aproximar o fim das negociações - prevendo-se que o plano global possa ser revelado já amanhã -, não foi ontem possível apurar se a troika já chegou a um entendimento que será dado a conhecer, em primeiro lugar, ao Governo e, depois, ao Banco de Portugal. Há uma linha favorável a que o Tier 1 se fixe em 10 por cento. Há uma segunda sensibilidade (esta partilhada pelos bancos) que considera que o Core Tier 1 se deve manter nos oito por cento, até porque a Irlanda, que após a intervenção viu os seus rácios subirem para 13 por cento, continua sem ter acesso a financiamento dos mercados. E sustentam que o principal problema do sector é a falta de liquidez e que, ao exigir-se mais capital, coloca-se pressão adicional sobre o crédito, numa altura em que se pretende que os bancos aliviem a sua dependência do BCE e que, em simultâneo, reduzam o seu endividamento externo. 

Se o FMI tem dado sinais de não ter uma posição fechada sobre o tema do capital dos bancos, os técnicos da UE são os mais entusiastas quanto à inclusão no programa de ajuda de medidas de reforço da robustez do capital dos bancos nacionais. 

Não havendo uma única opinião, o PÚBLICO sabe que há quem aposte numa via de compromisso entre as duas visões: os bancos terão de reforçar o seu rácio, mas de modo progressivo. Uma das hipóteses é apresentarem-se no final do ano com um indicador de 9 por cento, valor que deverá em 2012 chegar aos 10 por cento. Esta via permitirá aos bancos prepararem-se sem necessidade de recorrer à injecção de fundos públicos, o que se traduziria na entrada do Estado nas instituições. 

No quadro do reforço das exigências de capital, os responsáveis europeus têm anunciado que será criada uma linha de recapitalização para a banca portuguesa que corresponderá a 10 por cento do valor da ajuda. Se o empréstimo externo for de 80 mil milhões de euros, então o fundo de recapitalização será de oito mil milhões de euros. 

No prospecto de aumento de capital (nos riscos potenciais da actividade onde inclui a possibilidade de ocorrência de um atentado), o BCP admite que, no caso de haver um aumento dos rácios de capital, não poderá excluir a possibilidade de recorrer a fundos estatais. 

No âmbito da discussão das medidas a incluir no programa de ajuda externa, no que respeita à estabilização financeira, terão sido abordadas várias hipóteses, entre elas a criação de instrumentos que facilitem a abertura à banca nacional dos mercados de financiamento, o que poderá passar pela criação de linhas com garantia do Fundo de Estabilização Europeu Financeira (ou seja, aval externo). A troika terá ainda equacionado a possibilidade de serem criadas linhas que permitam ao Estado recomprar aos bancos dívida pública, ou a criação de mecanismos que permitam que financiamentos dados pela banca às empresas públicas e às autarquias possam ser transferidos para o universo do Estado (António de Sousa anunciou que, em Março, o sector público devia aos bancos mais de 40 mil milhões de euros, tanto quanto estes deviam ao BCE). Esta última solução permitiria ainda aos bancos reduzir a sua carteira de crédito e libertar meios para canalizar para a economia. 

Estes temas estão a ser dirimidos num quadro particular, pois as instituições têm sobre as mesmas matérias sensibilidades distintas. Se o BCE está preocupado com a estabilidade do sistema financeiro, a UE e o FMI têm uma perspectiva mais económica. Mas, ao contrário da UE, o FMI surge numa posição mais independente, pois está fora das lutas de poder europeias e com uma agenda menos política. A imprensa tem referido que a sua grande preocupação nas negociações tem que ver com a necessidade de criar um plano que minore os efeitos recessivos da economia e promova o seu crescimento sustentado.

fonte:http://economia.publico.pt/

publicado por adm às 22:46 | comentar | favorito
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